Quel

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Entrando no elevador

Pequena Quel, como muitos de nós, é feita de sonhos malucos, afetos sinceros, boas lembranças, sorrisos tímidos e olhares que dizem tudo. E acredito que essa é uma boa combinação. Mas, infelizmente, nessa receita há alguns tantos ingredientes que pequena Quel preferiria que não estivessem lá. E um deles é o medo.
Pequena Quel tem medo. E tem medo de muitas coisas:
– aranhas,
– ficar sozinha no escuro,
– palhaços tristes,
– assistir filmes de terror (sem a Lu)
– escorpiões,
– ser apedrejada por crianças em Fez,
– windows 8,
– não terminar o mestrado,
– fanatismo,
– tomar as decisões erradas etc.

A lista é mais grandinha que isso. Mas se tem algo que leva pequena Quel a passar mal de tanto medo, esse algo é ficar presa em lugares fechados. E é por isso que ela desconfia de elevadores. Não espere um dia dividir o elevador com a Quel e ao mesmo tempo ter uma descontraída conversa sobre o tempo. Não vai funcionar. Ela estará toda tensa localizando o botão de emergência e se perguntando se o elevador irá parar, se as luzes vão se apagar, se ela vai morrer ali… enfim, nada de muito estranho para quem compartilha desse medo.

Mas no mundo em que vivemos, com prédios cada vez mais altos, seria impraticável ignorar a necessidade dos elevadores, então pequena Quel foi buscando meios de lidar com isso da melhor maneira possível. E foi assim que ela aprendeu que prefere ter companhia ao usar um elevador, pois sozinha sobra mais espaço para o medo se acomodar e incomodar. Mas companhia demais também não é confortável, pois é preciso ter espaço para ficar relaxada, respirar tranquila e repetir para si mesma que está tudo bem e que o elevador não irá parar. Então, se o elevador estiver muito cheio, mesmo que ela esteja morrendo de pressa, pequena Quel vai esperar o próximo. E não adianta o senhor simpático se espremer no canto para lhe indicar que ela pode entrar, ela dará um discreto sorriso e se recusará a entrar no elevador lotado; fina e elegante, como se fosse importante demais para dividir espaço com aquelas tantas pessoas que se encontram ali. Mas não é arrogância. É medo. E, como todo medo, é também irracional.
Talvez o oposto do medo seja o prazer. E, se for assim, para pequena Quel, um prazer tão grande quanto seu medo de elevadores é poder viajar. E foi em uma das viagens mais gostosas que ela já fez na vida que nossa heroína precisou encarar seu maior medo.

Pequena Quel estava tendo um dia particularmente feliz. Havia desfrutado de uma divertida viagem de carro, de um conturbado almoço em Bruges e de uma deliciosa tarde na companhia de amigos super queridos. O dia já estava terminando quando chegaram em Bruxelas. E o plano era bem simples: fazer o check-in no hotel, tomar um rápido banho e virar a noite bebendo, rindo e respirando o ar da boemia europeia.
O rapaz do hotel acompanhou pequena Quel e seus amigos até a porta do elevador, prontificando-se a ajudar com a bagagem. O elevador chegou e a porta se abriu diante do grupo…

O horror! O horror! Por Hércules! O que era aquilo?
Velho, vermelho, vesano! Aquilo não era um elevador! Era um pesadelo!

Pequena Quel sabia que algo estava errado e que não podia entrar naquela cápsula da morte. Mas, encorajada pelos amigos que já iam se acomodando no minúsculo espaço e pelo rapaz que lhe indicava o caminho com os braços e exibia um malicioso sorriso, pequena Quel ignorou todos os alertas que sua mente lhe enviava e entrou. E ainda exibiu seu francês ao agradecer o rapaz que gentilmente lhe conduzia a uma das piores experiências de sua vida.

TheShineAs portas se fecharam lentamente diante de seus olhos dando uma leve tremidinha antes de se encontrarem. O elevador fez um barulho estranho e subiu um pouquinho. E aí parou. E aí subiu mais um pouquinho. E parou. E continuou parado. E o ar foi sendo sugado para fora. E tudo começou a girar. E um verdadeiro pânico invadiu o elevador e atingiu em cheio nossa pequena amiguinha. E foi horrível.
O que fazer numa hora dessas? Processar o hotel? Consertar o elevador? Tratar o pânico que se instaurava? Registrar o acontecido para a posteridade? Tínhamos advogados, engenheiros (elétrico e mecânico), psicológo, historiador… e a pequena linguista estava surtando tanto que não conseguia nem produzir uma vogal, muito menos a fricativa necessária para começar a pedir socorro…

E a voz ficou travada na garganta. E as lágrimas foram inevitáveis. E pequena Quel sabia que a situação, no fundo, oferecia pouco risco, quiçá risco nenhum. Mas ainda assim chorava. Mas não chorava de medo, pois maior que o próprio medo era a vergonha do medo que sentia. E se algo a impedia de entrar em pânico era o fato de não estar sozinha, mas na companhia de amigos incríveis que estavam ali tentando lidar com a situação da melhor maneira possível. Foi horrível, mas sem a companhia certa teria sido mil vezes pior. E quando as portas finalmente se abriram e o ar voltou a encher seus pulmões, pequena Quel correu para fora do elevador como um bichinho assustado. E, depois do acontecido, mesmo de madrugada, quando voltou para o hotel meio bêbada e meio cansada, morrendo de vontade de fazer xixi, ela subiu correndo todos os lances de escada sem reclamar, sem nem pensar em entrar no elevador novamente.

Mas agora, toda vez que precisa entrar em um elevador suspeito, pequena Quel se recorda daquela tarde e repete para si mesma: “se o elevador parar, eu vou sobreviver; já passei por isso uma vez e ficou tudo bem”. O bastardo do medo ainda está lá, mas nossa pequena heroína agora sabe que é capaz de enfrentá-lo. E se um golpe não funciona mais de uma vez em um mesmo cavaleiro, o medo agora está em desvantagem. E que venham os próximos desafios! Mas, por favor, não joguem aranhas na Quel, não é assim que funciona…

Written by Quel

dezembro 5, 2014 às 2:30 pm

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