Quel

As aventuras de pequena Quel

leave a comment »

Episódio de hoje: Uma lição para toda a vida

No longínquo ano de 1998, professora Judita propôs à sala da 4ª série A uma singela tarefa: cuidar de um ovo.
Cada aluno deveria pedir um a seus pais e levá-lo para a escola durante cinco dias. É claro que a classe fez o favor de complicar esse simples dever criando uma atmosfera de competição para ver quem tinha o ovo mais bonitinho, o mais bem vestido, o mais descolado, o mais sexy…

Sr. OvoPequena Quel escolheu um ovo particularmente redondo e, utilizando toda a sua criatividade, chamou-o de Sr. Ovo. Animada com a tarefa, não via a hora de desfilar com seu ovo para lá e para cá na escola. Juntos iriam brincar no parquinho, visitar os coelhos, rolar na grama, fugir da Donana da 4ª B e ouvir histórias sobre a menina do bueiro.
Sr. Ovo, criatura serena que não se chocava com facilidade (ba tum tsss), era pardo, vivia em uma cestinha amarela enfeitada de roxo e não usava roupinhas. Possuía apenas dois olhinhos expressivos que transmitiam carinho e confiança àquela que zelava pelo seu bem estar (vide reconstituição fotográfica).

Contudo, Senhora Dona Mãe, conhecendo a filha estabanada que tem, decidiu cozinhar o sr. Ovo. Era para o bem de pequena Quel, para garantir que ela não ficaria triste quando derrubasse no chão seu novo amiguinho, quando tropeçasse com ele na mão, quando esquecesse que o estava carregando, quando o largasse em um canto qualquer para brincar de pega com os coleguinhas. Assim, em uma panela de água fervente, Dona Mãe matou o propósito da tarefa e privou nossa heroína de adquirir qualquer senso de responsabilidade que pudesse advir dos cuidados com um ovo.

Com aquela missão, mais do que desenvolver seu instinto materno, pequena Quel começou a desenvolver sua conhecida paranoia. Morria de medo de ser desmascarada. Ninguém poderia tocar em Sr. Ovo. Ninguém deveria chegar perto para não sentir seu cheiro, o qual, diga-se de passagem, já se podia notar logo no primeiro dia.
Sr. Ovo não deveria chamar a atenção, não poderia brincar com os outros ovos. Isolaram-se os dois, ovo e Quel, a fim de proteger o segredo do cozimento.

Dona Judita, professorinha de longa data, não ficava inspecionando os ovos de perto, apenas perguntava vez ou outra como eles estavam. Mas, no último dia, para azar de nossa mini aventureira, enquanto elogiava distraidamente a bonita cestinha amarela, Judita foi aproximando seus dedos do rostinho contente do Sr. Ovo…
– Não! – gritou Quel para afugentar o perigo.
A sala toda prendeu a respiração enquanto observavam a cena. A professora afastou a trêmula mão, aguardando uma explicação plausível. Quem grita assim com a querida professora? Pequena Quel precisou pensar rápido:
– É que ele tá dormindo. Acorda ele não.
A professora riu e os colegas respiraram aliviados. Criança diz cada coisa!

Uma nota A seria mais que merecida, mas não nos lembramos ao certo se a tarefa foi avaliada. Sr. Ovo veio a falecer numa pacata manhã de sábado e, apesar dos veementes protestos de nossa heroína, não teve um enterro digno. Por mais que pequena Quel insistisse em lhe conceder todas as pompas necessárias para que ele pudesse adentrar o submundo dos ovos, ele foi sumariamente atirado no lixo orgânico. Diz a lenda que, algum tempo depois, Sr. Ovo reencarnou em um pintinho asmático. Quel, por sua vez, tornou-se uma garota menos responsável e mais paranoica, como havia de ser.

Written by Quel

dezembro 7, 2014 às 2:35 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: