Quel

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Para lá de Marrakech

Um belo dia, pequena Quel colocou a mochila nas costas e partiu para o Marrocos. Por que não? Afinal, como sabemos, inversamente proporcional à sua baixa estatura é seu grande espírito de aventura.

O vôo partia no primeiro horário do dia 10 de dezembro. Então, pequena Quel teve que dormir no aeroporto Madrid-Barajas, como já havia feito outras tantas vezes. Para quem achou que passaria seu aniversário sozinha, essa mini-mochileira se viu muito feliz por comemorar seus 20 e poucos anos com bolo de chocolate e sentada entre amigos no chão do aeroporto. Esse foi o começo perfeito para a grande peripécia que aguardava nossa pequena aventureira do outro lado do estreito de Gibraltar.

medinaUma vez lá, tudo era fascinante! Desde as vestimentas das pessoas até o formato das pedras na calçada, passando pela escrita nas placas, pela vegetação abundante e pelo clima ímpar da cultura muçulmana. Tudo tão exótico! Pequena Quel subiu sorrindo no ônibus que a levaria do aeroporto à famosa praça Djemaa el-Fnaa, no coração de Marrakech. E foi brincando que repetiu um conhecido palíndromo, sem saber do poder premonitório que tais palavras poderiam ter em terras africanas.

Dentro da medina, os olhinhos da pequena turista mal davam conta de observar todas as quinquilharias das lojinhas apinhadas em estreitas ruelas. Geralmente alheia a vitrines, dessa vez nossa amiguinha não conseguia parar de estudar cada peça em exposição. Tapetes. Temperos. Tabuleiros. Tecidos. Talismãs. Terrinas. Taças. Tequila não (o álcool é manobra abominável de Satanás – Alcorão 5:90).

E foi então que os olhos de pequena Quel recaíram sobre um belo lenço de moedas. Aluna iniciante, ela sentia que aquele lenço era tudo o que lhe faltava para que pudesse se realizar na dança do ventre. Sem ele, nem valia a pena continuar com as aulas (e fica aqui a desculpa). Assim, pequena Quel olhou para dentro da loja, localizou o vendedor e “excusez-moi, ça coûte combien?”

E a aventura começou!

O vendedor puxou nossa pequena mochileira pelas mãos; ela, por sua vez, em sua surpresa, agarrou a mão da amiga mais próxima, a Sil… e ambas foram arrastadas para o interior da loja! No fundo do estabelecimento não havia lenços de moedas. Tentaram sair, mas o vendedor segurava pequena Quel com força e, falando árabe alucinadamente, começou a enrolar uma espécie de turbante na cabeça da pequena que só conseguia dizer “non, non, non”, enquanto tentava se desvencilhar da situação e correr para a praça dos mortos. Após enrolar o pano que, diga-se de passagem, não parecia muito limpo, o vendedor começou a forçar para baixo a mochila que Quel levava nas costas. Cruzando os braços na frente do corpo, nossa pequena viajante continuava a dizer “non, non, non” repetidas vezes e cada vez mais alto. “Lâchez-moi!”, “Laissez-moi partir!”, mas o rapaz parecia não compreender francês.

O que ele queria com sua mochila? Ele sorria, fazia gestos como se estivesse tirando fotos e então insistia em tirar a mochila das costas da Quel, que, desconfiada, tentava impedí-lo a todo custo. Aparentemente não havia nada de muito valor na bolsa: apenas roupas, bolachas e produtos de higiene pessoal. Dinheiro, cartão de crédito e passaporte estavam a salvo no porta-dólar sob a roupa. Mas pequena Quel não iria soltar sua mochila! Em sua mente, ela começou a repassar os muitos avisos que havia lido em sites de viagens sobre roubos de mochilas no Marrocos. E é claro que a combinação [imaginação fértil] + [tendência à paranoia] começou a levar seus pensamentos para outras ameaças, como extração de órgãos e tráfico internacional de mulheres o.O

Conforme aumentava a força do rapaz, crescia o desespero no peito de nossa amiguinha. Confusa, ela não sabia se ria, se chorava, se entregava a mochila e saía correndo, se chamava a polícia ou se perguntava novamente o preço do lenço (e ela ainda estava pensando no lenço?!). E quando tudo parecia perdido, quando a força já abandonava seus cansados bracinhos, quando as lágrimas já se sentiam quentes em seus olhos… um herói veio em seu resgate!

Alertado pela Noely, a única que havia conseguido fugir do ataque do vendedor de lenços, super-Hugo foi em socorro das meninas abduzidas. E foi com toda a imponência de um homem ocidental que ele derrotou o abusado vendedor. E nem precisou fazer nada. Bastou sua entrada na loja para que o homem soltasse pequena Quel imediatamente. Sorrindo sem graça, o vilão explicou, em francês (maldito!), que só queria que a pequena tirasse uma foto usando o tal turbante típico. Sendo assim, o herói abraçou a mocinha, que sorria aliviada para a câmera, e a foto foi tirada. Muito habilmente e visivelmente mau-humorado, o vendedor retirou o lenço da pequena aventureira e deixou que os viajantes partissem em paz.

marrakech1Quel e sua mochila puderam então se reunir ao restante do grupo para curtirem a viagem que correu na mais perfeita tranquilidade… a não ser pelo incômodo de se ter que usar privadas turcas. E pelos homens que passavam se esfregando nas brasileiras. E pelos vendedores que gritavam com quem não queria negociar o preço. Ah! E também pelo banho que, por falta de opção, tomaram na pia de uma padaria. E eu já disse que eles dormiram em uma rodoviária? E que quase foram apedrejados por criancinhas em Fez? E que poderiam ter despencado de cima do Atlas enquanto o motorista dormia ao volante? Tranquilidade!? Estou tentando enganar quem? Há material para pelo menos mais uns cinco ou seis episódios…

Mas o importante é que nossa mini-aventureira voltou para casa sã, salva e cheia de histórias para contar. E, se alguém perguntar à pequena Quel se ela voltaria ao Marrocos, sua resposta será “Claro! Quando vamos?”

Written by Quel

abril 30, 2015 às 5:09 pm

Publicado em Uncategorized

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