Quel

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Aprendendo alemão (parte II)

Pequena Quel. Kleine Quel. Na aula de alemão. Im Deutschunterricht. Quinta. Donnerstag. Hora do almoço. Mittagessenszeit.

Se já é difícil se concentrar na aula em um dia normal, imagina em uma quinta quente e abafada! Pequena Quel entrou em seu curioso estado de semi-atenção. Semi-vida. Parte de seu espírito estava atenta às palavras estranhas que saiam da boca da professora. Língua engraçada. Difícil. Mas outra parte de seu espírito corria descalça por campinas nubladas em busca de uma flor azul.

A professora insiste. Ela quer que todos se dediquem às tarefas. Ela realmente acredita que seja possível aprendermos alemão! E, então, pede que leiamos o texto do livro:

Was draussen passiert“O que se passa lá fora
A melhor história que já ouvi não ocupa nem uma página e meia. Esqueci o nome do autor. Li um dia no jornal. Dois doentes terminais dividem um quarto. Um fica em uma cama perto da porta; o outro, perto da janela. Somente o que fica perto da janela consegue olhar para fora, então, ele narra ao companheiro, durante horas, diariamente, tudo o que se passa lá fora. Um dia, esse paciente começa a passar muito mal. O que se encontra perto da porta poderia chamar a enfermeira, mas não o faz: ele está pensando na cama junto à janela. De manhã, o outro morre, sufocado. Em pouco tempo as enfermeiras limpam a cama desocupada. Ávido e esperançoso, o paciente ocupa sua desejada cama unto à janela. Ele vira o rosto para ver o que há lá fora. Nada: apenas um muro.”

Terminada a leitura, a professora pergunta o que a turma achou do texto. Um aluno diz que o achou triste, outro diz que o achou engraçado… e, em pouco tempo, a sala toda se rende a uma descontraída análise textual. Pequena Quel sai de seu torpor e se coloca entre as duas posições, tentando justificar que a tristeza da história a torna cômica. Algumas vozes sentem pena do homem que cometeu um crime em vão, outras acham que foi uma forma de justiça. Alguém menciona a bondade do paciente que inventava histórias sobre o que se passava do lado de fora. Outro lembra que Luís Fernando Veríssimo escreveu uma crônica semelhante. Alguém se revolta contra a qualidade desse hospital que permitiu a morte de um paciente. Outro diz que isso poderia ter ocorrido no SUS.

E logo as vozes começam a se misturar, as palavras se atropelam e a análise vai ficando mais e mais animada. No entanto, a professora não está contente e tenta pedir silêncio. A discussão, contudo, já criou vida e se tornou algo muito maior que a sala de aula. Não há como parar: todos querem falar ao mesmo tempo. Alguns escutam seus colegas enquanto falam, outros somente falam. A aula de alemão nunca foi tão viva em uma quinta-feira!

Eis que, com um grito desesperado, a professora consegue deter o monstro da discussão e diz:
“Não dá para comentar o texto em alemão? Eu quero saber o que vocês pensam, mas auf Deutsch!”

A sala encara a professora com espanto por breves segundos, até se ouvir uma voz tímida e insegura:
Matheus diz: “Auf Deutsch? Ok. Das ist traurig” (“Em alemão? Ok. É triste”)
E, aos poucos, outros alunos vão fazendo coro:
Miguel diz: “Das ist traurig”
Mirele diz: “Das ist traurig”
Pequena Quel diz: “Das ist traurig”

E, em poucos segundos, num feito raríssimo, uma sala de 20 alunos consegue chegar a um consenso sobre o texto: das ist traurig.

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Episódio: Aprendendo alemão (parte I)

Written by Quel

maio 13, 2015 às 8:00 pm

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