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As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: A irmã do Rik

rikrakMini-Rik tinha um ano e dez meses quando pequena Quel entrou em sua vida. Segundo relatos de Senhora Dona Mãe, assim que o bebê chegou em casa, Rik compreendeu que aquele pequeno ser lhe pertencia e morria de medo de que alguém lhe roubasse seu mais novo brinquedo. Assim, chorava copiosamente quando alguém a levava para longe de seu pequeno alcance de visão. Ainda bem que laços amorosos foram construídos logo cedo, pois nossa heroína fez questão de pôr esse amor à prova ao longo de seu amadurecimento.

Poucos anos após o primeiro encontro dos dois, inspirados por um desenho animado, os irmãos decidiram brincar de cachorrinhos, engatinhando pela casa e latindo felizes. Eis que, a fim de defender seu território, filhotinha Quel abocanhou a pata dianteira do outro cãozinho. Dona Mãe, ao ver o filho chorando e escondendo com a mão uma horrenda marca de mordida, começou a gritar com a pequena cachorrinha que, por sua vez, acompanhava tudo com olhos confusos, sem entender exatamente qual era o problema. Cachorros mordem. Todo mundo sabe disso. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Tempos depois, já menos pequenos, os dois irmãos estavam brincando de polícia e ladrão: uma de suas brincadeiras favoritas. Naquele dia, o serviço de inteligência havia descoberto que uma importante instituição financeira estava prestes a ser assaltada. Para defender o tesouro, policial Quel ficou à paisana, fingindo ser a faxineira do banco. Sua arma de espoleta estava cuidadosamente presa em um cinto de barbante. Segurando firmemente sua vassoura, seu olhar atento procurava o menor sinal de perigo.
O assaltante chegou ao banco ostentando uma metralhadora plástica e ordenando que clientes e funcionários se deitassem no chão. Policial Quel, ágil e bem treinada, não teve tempo para sacar sua arma; no calor do momento, sentou a vassoura na cabeça do invasor. Rik chorou. Dona Mãe entrou correndo na sala e encontrou pequena Quel ainda agarrada à arma do crime; sem o menor respeito pela autoridade policial que estava ali cumprindo seu dever, tomou a vassoura e a quebrou em duas partes. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Castigo era parte da rotina de nossa heroína, cujo caráter ainda estava em formação. Quando a pequena não era pega em suas peraltices, Dona Mãe colocava os dois irmãos de castigo. Em seu quarto solitário, pensando na vida, menina Quel geralmente encontrava arrependimento em seu coração; então, escrevia um bilhetinho: “Rik, você ainda me ama?”, e o passava por baixo da porta de seu irmão. A resposta costumava vir na forma de um giro de maçaneta que lhe convidava a entrar, assim podiam brincar em silêncio, fingindo que ainda estavam cada um em seu quarto.

Certa vez, em um ataque de fúria pré-adolescente, o bilhetinho voltou com a resposta “não”. Naquele exato momento, as paredes da residência dos Faustinos se estreitaram e nossa heroína sentiu que ali já não havia mais lugar para sua pessoinha. Seu irmão já não a amava mais.

Pequena Quel foi para seu quarto e colocou dentro de uma colorida mochila tudo o que uma criança de 9 anos realmente necessita para sobreviver sozinha no mundo: seu ursinho de pelúcia, sua coleção de pintados à mão do Kinder Ovo, o livro ilustrado da Alice, um tubo de pasta Tandy, um pacote de bolacha maria, seu diário pessoal e uma caneta gel prateada. Passando sorrateiramente pela cozinha, onde Dona Mãe estava distraída enrolando pães de queijo, pequena Quel alcançou o quintal e atravessou o corredor sem despertar a desconfiança de sua avó, que costurava no quartinho próximo à garagem. Subindo as escadas, nossa heroína estava finalmente pronta para ganhar as ruas. Ao abrir o portão, um último pensamento ocupou sua mente: pães de queijo.

Logo estariam no forno, adquirindo forma, cor, cheiro e sabor. O sangue mineiro em suas veias falou mais alto, e pequena Quel dedidiu adiar sua partida. Voltou para casa e escondeu a mochila atrás da porta da cozinha, assim, poderia fugir mais discretamente após o lanchinho. Angustiada, deixou-se sentar à mesa da cozinha. Senhora Dona Mãe observou a cena e lançou a pergunta: “você não estava de castigo, mocinha?”. Pequena Quel fez que não com a cabeça. Por algum motivo, negar que deveria estar de castigo costumava funcionar. Senhora Dona Mãe apenas riu e foi chamar o Rik, que ainda estava em seu quarto, “de castigo”, jogando Alex Kidd no Master System.

Ao ver Mini-Rik na entrada da cozinha, pequena Quel não se segurou e caiu no choro. Dona Mãe, muito preocupada, quis saber o que havia acontecido. Em meio a soluços e sentindo um grande aperto no peito, Quel colocou para fora toda a sua dor: “ele disse que não me ama mais”. Rik deu risada, mas Dona Mãe entendeu o desespero de sua pequenininha, pegou-a no colo e lhe explicou que não era verdade. Que aquilo nunca seria verdade.

E foi assim que pequena Quel aprendeu que ela poderia morder o braço de seu irmão, acertá-lo na cabeça com a vassoura e brigar com ele o quanto quisesse… ele sempre a amaria. Da mesma forma, Rik poderia continuar enganando sua irmãzinha (“plante moedas no quintal, vai nascer um pé de dinheiro”); poderia asssutá-la (“você foi mordida por vampiros, olha essa marca aí no seu pescoço”); poderia tirar sarro dela (“só se veste de preto, parece a Wandinha da família Adams”); poderia ameaçá-la (“vou arrancar a cabeça do seu ursinho quando você estiver dormindo!”); poderia até destruir seus sonhos mais românticos (“o Shun nunca vai se casar com você, ele é gay”). Ainda assim, o amor entre os dois irmãos falaria mais alto. E realmente fala. Para sempre.

Written by Quel

outubro 12, 2015 às 8:00 pm

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