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As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: A irmã do Rik

rikrakMini-Rik tinha um ano e dez meses quando pequena Quel entrou em sua vida. Segundo relatos de Senhora Dona Mãe, assim que o bebê chegou em casa, Rik compreendeu que aquele pequeno ser lhe pertencia e morria de medo de que alguém lhe roubasse seu mais novo brinquedo. Assim, chorava copiosamente quando alguém a levava para longe de seu pequeno alcance de visão. Ainda bem que laços amorosos foram construídos logo cedo, pois nossa heroína fez questão de pôr esse amor à prova ao longo de seu amadurecimento.

Poucos anos após o primeiro encontro dos dois, inspirados por um desenho animado, os irmãos decidiram brincar de cachorrinhos, engatinhando pela casa e latindo felizes. Eis que, a fim de defender seu território, filhotinha Quel abocanhou a pata dianteira do outro cãozinho. Dona Mãe, ao ver o filho chorando e escondendo com a mão uma horrenda marca de mordida, começou a gritar com a pequena cachorrinha que, por sua vez, acompanhava tudo com olhos confusos, sem entender exatamente qual era o problema. Cachorros mordem. Todo mundo sabe disso. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Tempos depois, já menos pequenos, os dois irmãos estavam brincando de polícia e ladrão: uma de suas brincadeiras favoritas. Naquele dia, o serviço de inteligência havia descoberto que uma importante instituição financeira estava prestes a ser assaltada. Para defender o tesouro, policial Quel ficou à paisana, fingindo ser a faxineira do banco. Sua arma de espoleta estava cuidadosamente presa em um cinto de barbante. Segurando firmemente sua vassoura, seu olhar atento procurava o menor sinal de perigo.
O assaltante chegou ao banco ostentando uma metralhadora plástica e ordenando que clientes e funcionários se deitassem no chão. Policial Quel, ágil e bem treinada, não teve tempo para sacar sua arma; no calor do momento, sentou a vassoura na cabeça do invasor. Rik chorou. Dona Mãe entrou correndo na sala e encontrou pequena Quel ainda agarrada à arma do crime; sem o menor respeito pela autoridade policial que estava ali cumprindo seu dever, tomou a vassoura e a quebrou em duas partes. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Castigo era parte da rotina de nossa heroína, cujo caráter ainda estava em formação. Quando a pequena não era pega em suas peraltices, Dona Mãe colocava os dois irmãos de castigo. Em seu quarto solitário, pensando na vida, menina Quel geralmente encontrava arrependimento em seu coração; então, escrevia um bilhetinho: “Rik, você ainda me ama?”, e o passava por baixo da porta de seu irmão. A resposta costumava vir na forma de um giro de maçaneta que lhe convidava a entrar, assim podiam brincar em silêncio, fingindo que ainda estavam cada um em seu quarto.

Certa vez, em um ataque de fúria pré-adolescente, o bilhetinho voltou com a resposta “não”. Naquele exato momento, as paredes da residência dos Faustinos se estreitaram e nossa heroína sentiu que ali já não havia mais lugar para sua pessoinha. Seu irmão já não a amava mais.

Pequena Quel foi para seu quarto e colocou dentro de uma colorida mochila tudo o que uma criança de 9 anos realmente necessita para sobreviver sozinha no mundo: seu ursinho de pelúcia, sua coleção de pintados à mão do Kinder Ovo, o livro ilustrado da Alice, um tubo de pasta Tandy, um pacote de bolacha maria, seu diário pessoal e uma caneta gel prateada. Passando sorrateiramente pela cozinha, onde Dona Mãe estava distraída enrolando pães de queijo, pequena Quel alcançou o quintal e atravessou o corredor sem despertar a desconfiança de sua avó, que costurava no quartinho próximo à garagem. Subindo as escadas, nossa heroína estava finalmente pronta para ganhar as ruas. Ao abrir o portão, um último pensamento ocupou sua mente: pães de queijo.

Logo estariam no forno, adquirindo forma, cor, cheiro e sabor. O sangue mineiro em suas veias falou mais alto, e pequena Quel dedidiu adiar sua partida. Voltou para casa e escondeu a mochila atrás da porta da cozinha, assim, poderia fugir mais discretamente após o lanchinho. Angustiada, deixou-se sentar à mesa da cozinha. Senhora Dona Mãe observou a cena e lançou a pergunta: “você não estava de castigo, mocinha?”. Pequena Quel fez que não com a cabeça. Por algum motivo, negar que deveria estar de castigo costumava funcionar. Senhora Dona Mãe apenas riu e foi chamar o Rik, que ainda estava em seu quarto, “de castigo”, jogando Alex Kidd no Master System.

Ao ver Mini-Rik na entrada da cozinha, pequena Quel não se segurou e caiu no choro. Dona Mãe, muito preocupada, quis saber o que havia acontecido. Em meio a soluços e sentindo um grande aperto no peito, Quel colocou para fora toda a sua dor: “ele disse que não me ama mais”. Rik deu risada, mas Dona Mãe entendeu o desespero de sua pequenininha, pegou-a no colo e lhe explicou que não era verdade. Que aquilo nunca seria verdade.

E foi assim que pequena Quel aprendeu que ela poderia morder o braço de seu irmão, acertá-lo na cabeça com a vassoura e brigar com ele o quanto quisesse… ele sempre a amaria. Da mesma forma, Rik poderia continuar enganando sua irmãzinha (“plante moedas no quintal, vai nascer um pé de dinheiro”); poderia asssutá-la (“você foi mordida por vampiros, olha essa marca aí no seu pescoço”); poderia tirar sarro dela (“só se veste de preto, parece a Wandinha da família Adams”); poderia ameaçá-la (“vou arrancar a cabeça do seu ursinho quando você estiver dormindo!”); poderia até destruir seus sonhos mais românticos (“o Shun nunca vai se casar com você, ele é gay”). Ainda assim, o amor entre os dois irmãos falaria mais alto. E realmente fala. Para sempre.

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Written by Quel

outubro 12, 2015 at 8:00 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Aprendendo alemão (parte II)

Pequena Quel. Kleine Quel. Na aula de alemão. Im Deutschunterricht. Quinta. Donnerstag. Hora do almoço. Mittagessenszeit.

Se já é difícil se concentrar na aula em um dia normal, imagina em uma quinta quente e abafada! Pequena Quel entrou em seu curioso estado de semi-atenção. Semi-vida. Parte de seu espírito estava atenta às palavras estranhas que saiam da boca da professora. Língua engraçada. Difícil. Mas outra parte de seu espírito corria descalça por campinas nubladas em busca de uma flor azul.

A professora insiste. Ela quer que todos se dediquem às tarefas. Ela realmente acredita que seja possível aprendermos alemão! E, então, pede que leiamos o texto do livro:

Was draussen passiert“O que se passa lá fora
A melhor história que já ouvi não ocupa nem uma página e meia. Esqueci o nome do autor. Li um dia no jornal. Dois doentes terminais dividem um quarto. Um fica em uma cama perto da porta; o outro, perto da janela. Somente o que fica perto da janela consegue olhar para fora, então, ele narra ao companheiro, durante horas, diariamente, tudo o que se passa lá fora. Um dia, esse paciente começa a passar muito mal. O que se encontra perto da porta poderia chamar a enfermeira, mas não o faz: ele está pensando na cama junto à janela. De manhã, o outro morre, sufocado. Em pouco tempo as enfermeiras limpam a cama desocupada. Ávido e esperançoso, o paciente ocupa sua desejada cama unto à janela. Ele vira o rosto para ver o que há lá fora. Nada: apenas um muro.”

Terminada a leitura, a professora pergunta o que a turma achou do texto. Um aluno diz que o achou triste, outro diz que o achou engraçado… e, em pouco tempo, a sala toda se rende a uma descontraída análise textual. Pequena Quel sai de seu torpor e se coloca entre as duas posições, tentando justificar que a tristeza da história a torna cômica. Algumas vozes sentem pena do homem que cometeu um crime em vão, outras acham que foi uma forma de justiça. Alguém menciona a bondade do paciente que inventava histórias sobre o que se passava do lado de fora. Outro lembra que Luís Fernando Veríssimo escreveu uma crônica semelhante. Alguém se revolta contra a qualidade desse hospital que permitiu a morte de um paciente. Outro diz que isso poderia ter ocorrido no SUS.

E logo as vozes começam a se misturar, as palavras se atropelam e a análise vai ficando mais e mais animada. No entanto, a professora não está contente e tenta pedir silêncio. A discussão, contudo, já criou vida e se tornou algo muito maior que a sala de aula. Não há como parar: todos querem falar ao mesmo tempo. Alguns escutam seus colegas enquanto falam, outros somente falam. A aula de alemão nunca foi tão viva em uma quinta-feira!

Eis que, com um grito desesperado, a professora consegue deter o monstro da discussão e diz:
“Não dá para comentar o texto em alemão? Eu quero saber o que vocês pensam, mas auf Deutsch!”

A sala encara a professora com espanto por breves segundos, até se ouvir uma voz tímida e insegura:
Matheus diz: “Auf Deutsch? Ok. Das ist traurig” (“Em alemão? Ok. É triste”)
E, aos poucos, outros alunos vão fazendo coro:
Miguel diz: “Das ist traurig”
Mirele diz: “Das ist traurig”
Pequena Quel diz: “Das ist traurig”

E, em poucos segundos, num feito raríssimo, uma sala de 20 alunos consegue chegar a um consenso sobre o texto: das ist traurig.

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Episódio: Aprendendo alemão (parte I)

Written by Quel

maio 13, 2015 at 8:00 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Striptease no banco mais querido do Brasil

Esta tarde, pequena Quel precisava pagar as taxas anuais de seu veículo (IPVA, DPVAT e taxa de licenciamento). O plano era fazer o pagamento pelo Internet Banking: o que deveria ser muito mais prático. Acontece que nada é prático no Banco do Brasil. Para começar, o sistema só funciona no Windows. E esse é praticamente o único motivo pelo qual pequena Quel mantém esse sistema operacional em seu computador. Antes de acessar a página do Internet Banking, ainda foi preciso instalar o módulo de proteção (pela 37ª vez só neste ano). Após baixar, instalar e reiniciar o computador, pequena Quel conseguiu acessar o bendito sistema para pagamentos online. E lá estava a opção para pagar o IPVA. Fácil, não? Não. Ao clicar na opção tão desejada, veio o aviso:

Problema na execução de sua solicitação…
No momento, esta transação de pagamento não poderá ser realizada no autoatendimento internet. Para realizá-la procure um caixa eletrônico ou uma agência do BB. (G999-501)

Pequena Quel, já acostumada com as frustrações de lidar com esse banco, foi até a agência mais próxima de sua casa, na Avenida da Saudade, para efetuar o pagamento. Acontece que o cartão de nossa heroína não funciona nos caixas eletrônicos. Esse problema já persiste há alguns meses, mas falta tempo para ir até a agência da conta solicitar um novo cartão. Pequena Quel faz compras normais no débito, mas não consegue utilizar o caixa eletrônico por falha na identificação. Por ora, bastava se dirigir ao caixa da agência com cartão e RG. Simples, não? Não! Nada é simples no Banco do Brasil. Pequena Quel entrou no banco, retirou sua senha e se dirigiu à porta detectora de metais.

shallnotpassJá acostumada a frequentar agências bancárias, pequena Quel separou chaves e celular. A porta travou. Pequena Quel tirou sua carteira e a bolsinha de moedas. A porta travou. Pequena Quel conversou com o guarda e lhe explicou que em sua bolsa só havia o Kindle, o qual não passa na portinha para pequenos objetos. O guarda pegou o Kindle através de um vão na porta. Sem carteira, moedas, chaves, celular e Kindle, pequena Quel tentou atravessar a enorme barreira de vidro à sua frente. A porta travou. Já impaciente, pequena Quel informou ao guarda: “não tem mais nada aqui” e abriu a bolsa para mostrar que estava vazia. Ele disse que poderia ser a caixinha do óculos (feita de pano!). Então era a sombrinha… que sombrinha, moço? Então eram as moedas no bolso… mas que bolso, moço? Esse short não tem bolsos. Então são os metais da bolsa! O guarda então sugeriu que pequena Quel utilizasse o guarda volumes. Foi preciso que o segurança empurrasse um a um os itens que pequena Quel já havia depositado no compartimento junto à porta. Frustrada e visivelmente impaciente, a cliente menos amada do Banco do Brasil juntou seus pertences, colocou-os na bolsa e guardou tudo no compartimento número 3. Segurando apenas os papéis necessários, a carteira e a chave do armário, nossa amiguinha se dirigiu mais uma vez à porta carinhosamente apelidada de Gandalf. A porta travou. Nossa! É claro que travou! Carteira e chave deveriam estar no compartimento junto à porta, mas a essa altura pequena Quel estava tão atordoada que nem estava pensando direito. Ela colocou a carteira e a chave na caixa de acrílico e se preparou para finalmente adentrar o banco. A porta travou.

Nessa hora, o guarda que era minimamente solícito já havia sumido de vista. Lá estava somente uma moça com cara de poucos amigos que evitava a todo custo o olhar impaciente de uma Quel que gesticulava vigorosamente a fim de ser notada. Foi preciso gritar “vem aqui!” para que a moça, muito mal humorada, chegasse perto do vidro. Nesse momento, a raiva era tanta que pequena Quel tremia dos pés à cabeça. Segurando apenas papéis e com lágrima nos olhos, esperava uma solução da segurança que olhava a cena como se não pudesse fazer nada. A essa altura, todo mundo já estava olhando a pequena garota que segurava o choro. Todos os olhos em pequena Quel. Nenhuma ajuda. Foi preciso gritar “vou ter que tirar a roupa?”. A guarda olhou com ligeiro espanto. “Moça, só falta isso! Vou ter que tirar minha roupa para entrar no banco?”. Todo mundo parou o que estava fazendo para observar a cena. A segurança, então, deu as costas. A raiva era tão grande que podia ser sentida na forma de uma terrível enxaqueca. Pequena Quel nunca se sentiu tão humilhada em toda a sua vida. É difícil até para explicar o que se passava naquele momento. Não dava nem para pensar direito. A respiração ficou difícil. O coração batia acelerado.

A segurança voltou acompanhada do que parecia ser um gerente e ele instruiu pequena Quel a continuar empurrando a porta para poder entrar. Não houve nenhum pedido de desculpa. Tudo o que pequena Quel ouviu foi a segurança falando para o gerente “é a fivela do short”. Isso! É a fivela de plástico do short! Isso explica tudo. Pequena Quel vestia um short jeans, com uma fivela de plástico pintada em tom metálico, uma regata laranja, um top de ginástica, meias de algodão e tênis. No cabelo levava uma presilha de plástico; no punho, uma fitinha de cetim. E só. Sem brincos, sem relógio, sem cinto. Nada, absolutamente nada que explicasse o que aconteceu naquele momento. Depois de todo esse estresse, pequena Quel subiu as escadas até o caixa e descobriu que seu número, R112, já havia sido chamado. Ela se dirigiu ao guarda e perguntou o que ela deveria fazer. Sair para pegar outra senha estava fora de cogitação! O rapaz se dirigiu até o guichê do caixa e explicou a situação. Era como se o banco estivesse fazendo um favor, como se eles estivessem sendo muito bonzinhos ao atender alguém depois da senha já ter sido chamada.

Pequena Quel pagou, desceu e saiu do banco, morrendo de vergonha por ter feito papel de louca. Acreditem, amigos, essa foi a primeira vez que pequena Quel ameaçou fazer um striptease em público. O nervoso era tão grande que ela nem sabe como atravessou a rua, chegou até o carro e foi para casa. Foi só quando ela girou a chave na porta da sala que a realidade de tudo o que havia sido vivido caiu como uma tempestade, causando uma crise de choro e agravando a enxaqueca, tamanha era a raiva do Banco Brasil naquele momento. Ninguém deveria ser obrigado a passar por tanta humilhação.

Written by Quel

abril 30, 2015 at 5:02 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Uma lição para toda a vida

No longínquo ano de 1998, professora Judita propôs à sala da 4ª série A uma singela tarefa: cuidar de um ovo.
Cada aluno deveria pedir um a seus pais e levá-lo para a escola durante cinco dias. É claro que a classe fez o favor de complicar esse simples dever criando uma atmosfera de competição para ver quem tinha o ovo mais bonitinho, o mais bem vestido, o mais descolado, o mais sexy…

Sr. OvoPequena Quel escolheu um ovo particularmente redondo e, utilizando toda a sua criatividade, chamou-o de Sr. Ovo. Animada com a tarefa, não via a hora de desfilar com seu ovo para lá e para cá na escola. Juntos iriam brincar no parquinho, visitar os coelhos, rolar na grama, fugir da Donana da 4ª B e ouvir histórias sobre a menina do bueiro.
Sr. Ovo, criatura serena que não se chocava com facilidade (ba tum tsss), era pardo, vivia em uma cestinha amarela enfeitada de roxo e não usava roupinhas. Possuía apenas dois olhinhos expressivos que transmitiam carinho e confiança àquela que zelava pelo seu bem estar (vide reconstituição fotográfica).

Contudo, Senhora Dona Mãe, conhecendo a filha estabanada que tem, decidiu cozinhar o sr. Ovo. Era para o bem de pequena Quel, para garantir que ela não ficaria triste quando derrubasse no chão seu novo amiguinho, quando tropeçasse com ele na mão, quando esquecesse que o estava carregando, quando o largasse em um canto qualquer para brincar de pega com os coleguinhas. Assim, em uma panela de água fervente, Dona Mãe matou o propósito da tarefa e privou nossa heroína de adquirir qualquer senso de responsabilidade que pudesse advir dos cuidados com um ovo.

Com aquela missão, mais do que desenvolver seu instinto materno, pequena Quel começou a desenvolver sua conhecida paranoia. Morria de medo de ser desmascarada. Ninguém poderia tocar em Sr. Ovo. Ninguém deveria chegar perto para não sentir seu cheiro, o qual, diga-se de passagem, já se podia notar logo no primeiro dia.
Sr. Ovo não deveria chamar a atenção, não poderia brincar com os outros ovos. Isolaram-se os dois, ovo e Quel, a fim de proteger o segredo do cozimento.

Dona Judita, professorinha de longa data, não ficava inspecionando os ovos de perto, apenas perguntava vez ou outra como eles estavam. Mas, no último dia, para azar de nossa mini aventureira, enquanto elogiava distraidamente a bonita cestinha amarela, Judita foi aproximando seus dedos do rostinho contente do Sr. Ovo…
– Não! – gritou Quel para afugentar o perigo.
A sala toda prendeu a respiração enquanto observavam a cena. A professora afastou a trêmula mão, aguardando uma explicação plausível. Quem grita assim com a querida professora? Pequena Quel precisou pensar rápido:
– É que ele tá dormindo. Acorda ele não.
A professora riu e os colegas respiraram aliviados. Criança diz cada coisa!

Uma nota A seria mais que merecida, mas não nos lembramos ao certo se a tarefa foi avaliada. Sr. Ovo veio a falecer numa pacata manhã de sábado e, apesar dos veementes protestos de nossa heroína, não teve um enterro digno. Por mais que pequena Quel insistisse em lhe conceder todas as pompas necessárias para que ele pudesse adentrar o submundo dos ovos, ele foi sumariamente atirado no lixo orgânico. Diz a lenda que, algum tempo depois, Sr. Ovo reencarnou em um pintinho asmático. Quel, por sua vez, tornou-se uma garota menos responsável e mais paranoica, como havia de ser.

Written by Quel

dezembro 7, 2014 at 2:35 pm

As aventuras de Pequena Quel

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Episódio de hoje: Super-Lady salva o dia

Nesta linda manhã de sábado, Quel decidiu acompanhar sua mãe ao mercado. Depois de alguns dias acamada, qualquer desculpa para sair de casa é mais que bem-vinda. E as duas ainda levaram o cachorrinho para passear. Lady Biscoito é uma simpatia de cachorro, gosta de chamar a atenção e de brincar com estranhos. Ela late, chora, rola no chão, faz o que for preciso para convencer as pessoas a pararem para lhe fazer um carinho ou ao menos um elogio (“que cachorro bonito!”, “de que raça ele é?”, “morde?”, “é filhote ainda, não?”, “é uma menina!”, “que gracinha!”). E por isso é sempre um prazer passear com essa miúda.

Hoje, enquanto Senhora Dona Mãe fazia as compras, pequena Quel e Biscoitinha ficaram aguardando do lado de fora. Muitas pessoas passaram por elas, algumas sequer olharam para o lado, mas várias pararam para brincar com a animada cachorrinha.

Pequena Quel, meio distraída, acompanhou com os olhos enquanto um carro ocupava uma das vagas perto da entrada. Eis que um conhecido adesivo lhe indica que em breve ela veria um antigo vizinho de Kitnet. E pequena Quel não estava muito contente com o possível reencontro, então deu as costas com a certeza de que ele jamais a reconheceria (tão longe de Barão, mais magra, mais loira, com óculos de sol e acompanhada de um cachorro). Mas Lady percebeu que algo não estava bem e começou a encarar o moço e a rosnar baixinho. Pequena Quel continuou de costas, tentando distrair sua cachorrinha:
“Não, menina, faz isso não… olha lá a mãe na fila do caixa… cadê a mãe, bebê? Cadê a mãe?”
Mas não adiantou, Lady continuou cismada com o moço. E, para não deixar dúvida alguma sobre sua identidade, ao se aproximar, o infeliz falou baixinho… “gostosa!”

Lady BiscoitoPronto! Pequena Quel nem teve tempo de reagir diante da grosseria… Lady Biscoito avançou no cara e começou a rosnar feito louca, mostrando os dentes e latindo de um jeito nunca visto antes. E foi difícil segurar a ferinha. O homem recuou e disse rindo com desdém: “eu estava só brincando, não precisava mandar o cachorro atacar”.
Ninguém precisou mandar o cachorro atacar. O cachorro nem conhece esse comando. O cachorro senta, deita, fica, vem, finge de morto, dá a patinha, mas não ataca, não por comando. E, assim, Lady Biscoito provou ser muito sensível ao que acontece à sua volta e mostrou que sabe decidir sozinha quando é hora de deixar de ser uma princesinha fofa para ser uma guerreira advogada dos bons costumes.

Chegando em casa, essa pequena heroína ganhou muitos mimos. Que orgulho!
Parece que pequena Quel agora tem uma excelente companheira para lhe ajudar nas batalhas da vida! Tem como não amar esse cachorro???

Written by Quel

dezembro 6, 2014 at 2:30 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Entrando no elevador

Pequena Quel, como muitos de nós, é feita de sonhos malucos, afetos sinceros, boas lembranças, sorrisos tímidos e olhares que dizem tudo. E acredito que essa é uma boa combinação. Mas, infelizmente, nessa receita há alguns tantos ingredientes que pequena Quel preferiria que não estivessem lá. E um deles é o medo.
Pequena Quel tem medo. E tem medo de muitas coisas:
– aranhas,
– ficar sozinha no escuro,
– palhaços tristes,
– assistir filmes de terror (sem a Lu)
– escorpiões,
– ser apedrejada por crianças em Fez,
– windows 8,
– não terminar o mestrado,
– fanatismo,
– tomar as decisões erradas etc.

A lista é mais grandinha que isso. Mas se tem algo que leva pequena Quel a passar mal de tanto medo, esse algo é ficar presa em lugares fechados. E é por isso que ela desconfia de elevadores. Não espere um dia dividir o elevador com a Quel e ao mesmo tempo ter uma descontraída conversa sobre o tempo. Não vai funcionar. Ela estará toda tensa localizando o botão de emergência e se perguntando se o elevador irá parar, se as luzes vão se apagar, se ela vai morrer ali… enfim, nada de muito estranho para quem compartilha desse medo.

Mas no mundo em que vivemos, com prédios cada vez mais altos, seria impraticável ignorar a necessidade dos elevadores, então pequena Quel foi buscando meios de lidar com isso da melhor maneira possível. E foi assim que ela aprendeu que prefere ter companhia ao usar um elevador, pois sozinha sobra mais espaço para o medo se acomodar e incomodar. Mas companhia demais também não é confortável, pois é preciso ter espaço para ficar relaxada, respirar tranquila e repetir para si mesma que está tudo bem e que o elevador não irá parar. Então, se o elevador estiver muito cheio, mesmo que ela esteja morrendo de pressa, pequena Quel vai esperar o próximo. E não adianta o senhor simpático se espremer no canto para lhe indicar que ela pode entrar, ela dará um discreto sorriso e se recusará a entrar no elevador lotado; fina e elegante, como se fosse importante demais para dividir espaço com aquelas tantas pessoas que se encontram ali. Mas não é arrogância. É medo. E, como todo medo, é também irracional.
Talvez o oposto do medo seja o prazer. E, se for assim, para pequena Quel, um prazer tão grande quanto seu medo de elevadores é poder viajar. E foi em uma das viagens mais gostosas que ela já fez na vida que nossa heroína precisou encarar seu maior medo.

Pequena Quel estava tendo um dia particularmente feliz. Havia desfrutado de uma divertida viagem de carro, de um conturbado almoço em Bruges e de uma deliciosa tarde na companhia de amigos super queridos. O dia já estava terminando quando chegaram em Bruxelas. E o plano era bem simples: fazer o check-in no hotel, tomar um rápido banho e virar a noite bebendo, rindo e respirando o ar da boemia europeia.
O rapaz do hotel acompanhou pequena Quel e seus amigos até a porta do elevador, prontificando-se a ajudar com a bagagem. O elevador chegou e a porta se abriu diante do grupo…

O horror! O horror! Por Hércules! O que era aquilo?
Velho, vermelho, vesano! Aquilo não era um elevador! Era um pesadelo!

Pequena Quel sabia que algo estava errado e que não podia entrar naquela cápsula da morte. Mas, encorajada pelos amigos que já iam se acomodando no minúsculo espaço e pelo rapaz que lhe indicava o caminho com os braços e exibia um malicioso sorriso, pequena Quel ignorou todos os alertas que sua mente lhe enviava e entrou. E ainda exibiu seu francês ao agradecer o rapaz que gentilmente lhe conduzia a uma das piores experiências de sua vida.

TheShineAs portas se fecharam lentamente diante de seus olhos dando uma leve tremidinha antes de se encontrarem. O elevador fez um barulho estranho e subiu um pouquinho. E aí parou. E aí subiu mais um pouquinho. E parou. E continuou parado. E o ar foi sendo sugado para fora. E tudo começou a girar. E um verdadeiro pânico invadiu o elevador e atingiu em cheio nossa pequena amiguinha. E foi horrível.
O que fazer numa hora dessas? Processar o hotel? Consertar o elevador? Tratar o pânico que se instaurava? Registrar o acontecido para a posteridade? Tínhamos advogados, engenheiros (elétrico e mecânico), psicológo, historiador… e a pequena linguista estava surtando tanto que não conseguia nem produzir uma vogal, muito menos a fricativa necessária para começar a pedir socorro…

E a voz ficou travada na garganta. E as lágrimas foram inevitáveis. E pequena Quel sabia que a situação, no fundo, oferecia pouco risco, quiçá risco nenhum. Mas ainda assim chorava. Mas não chorava de medo, pois maior que o próprio medo era a vergonha do medo que sentia. E se algo a impedia de entrar em pânico era o fato de não estar sozinha, mas na companhia de amigos incríveis que estavam ali tentando lidar com a situação da melhor maneira possível. Foi horrível, mas sem a companhia certa teria sido mil vezes pior. E quando as portas finalmente se abriram e o ar voltou a encher seus pulmões, pequena Quel correu para fora do elevador como um bichinho assustado. E, depois do acontecido, mesmo de madrugada, quando voltou para o hotel meio bêbada e meio cansada, morrendo de vontade de fazer xixi, ela subiu correndo todos os lances de escada sem reclamar, sem nem pensar em entrar no elevador novamente.

Mas agora, toda vez que precisa entrar em um elevador suspeito, pequena Quel se recorda daquela tarde e repete para si mesma: “se o elevador parar, eu vou sobreviver; já passei por isso uma vez e ficou tudo bem”. O bastardo do medo ainda está lá, mas nossa pequena heroína agora sabe que é capaz de enfrentá-lo. E se um golpe não funciona mais de uma vez em um mesmo cavaleiro, o medo agora está em desvantagem. E que venham os próximos desafios! Mas, por favor, não joguem aranhas na Quel, não é assim que funciona…

Written by Quel

dezembro 5, 2014 at 2:30 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Ganhando um cachorrinho

A manhã acordou lentamente. O perfume dos panetones assados no dia anterior ainda pairava no ar e se misturava com aquela leve alegria tão típica das manhãs de Natal. Na sala, sentada junto à árvore decorada com anjinhos de madeira, uma pequena garotinha, ainda em seu pijama, aguardava ansiosamente a chegada de seu presente.
Essa esperta garotinha já sabe que Papai Noel não existe, então aperta suas mãozinhas com toda a pequena força que possui, pedindo aos céus que seus pais tenham lhe comprado um vistoso cachorrinho.
*Nada torna a vida mais linda que os sonhos de uma inocente criancinha na manhã de Natal*

Mas, infelizmente, a vida é cheia de “mas”, “porém”, “todavia”, “contudo” e outras tantas adversativas que exprimem tão bem nossas adversidades!
E o “mas” dessa história possui um nome composto e pomposo: Rinite Alérgica. Pois é, aquela meiga garotinha, esperando ganhar o cachorrinho que inundará sua infância com lindas recordações, está prestes a sofrer sua segunda grande decepção. A primeira foi quando enterrou suas moedinhas acreditando que nasceria um pé de dinheiro (o Eto e o Rik juraram que daria certo!).

Voltemos àquela fresca manhã de Natal… E lá estava nossa amiguinha, apertando os lábios com os dentes, olhando esperançosa para o corredor, de onde seus pais viriam trazendo nos braços seu já tão amado bichinho de estimação. Eis que, quando seus pais finalmente adentram o recinto, um acanhado feixe de luz, escapando por entre as cortinas, acerta em cheio os olhos da menininha, fazendo com que ela pisque várias vezes seguidas e leve suas pequenas mãozinhas ao rosto para conter as lágrimas. Alérgica e Fotofóbica. São necessários alguns segundos para que a garotinha recupere a visão e consiga ver, lacrimejando, o que seus progenitores trazem nas mãos: um lindo casal de… tartarugas. Dingou e Bel.

Naquele exato momento, pequena Quel aprendeu uma lição em sua vida: tartarugas são os cachorros das crianças alérgicas. Dez minutos brincando com seu presente e pequena Quel aprendeu uma nova lição: tartaruga não é cachorro coisíssima nenhuma. E coitadinhas das crianças alérgicas!

Seus pais, com a melhor das intenções, tentaram lhe mostrar que aqueles bichinhos seriam mais interativos que os passarinhos da família Faustino (de fato!). E pequena Quel, sendo a boa filha que sempre foi amou aquelas criaturinhas com todo o seu coração e prometeu cuidar delas como se fossem dois vívidos cachorrinhos.

É importante fazermos nesse momento uma singela ressalva. Não pense, caro leitor, que pequena Quel havia ganho um casal de jabutis, os quais poderiam andar independentemente, ainda que lentamente, pela casa. Não! Eram duas tartaruguinhas de aquário, apáticas criaturas que sequer fixavam seus olhos em sua miúda dona.

Os anos foram se passando e pequena Quel dava tudo de si para conseguir brincar com seus animaizinhos de estimação. Ela tirava os bichinhos do aquário, contemplava sua frustrada tentativa de fuga, devolvia-os ao aquário, batia no vidro, servia-lhes petiscos e repetia para si mesma que estava se divertindo muito.
Alegria maior foi quando uma terceira tartaruga veio compor a matilha: a Alcaparras.
Alcaparras era o mais perto de um cachorro que pequena Quel teria por anos. Ela reconhecia o próprio nome e parecia gostar de ter sua barriguinha coçada, pois sempre retribuía o carinho com aquele ronronar mudo tão típico das tartarugas.

Eis que, numa tarde cinzenta, Dingou faleceu. Papai Faustino, sempre tão atento à felicidade de seus filhos, não tardou muito a providenciar um novo macho alfa para a matilha: Dino.
Acontece que Dino possuía um segredo sombrio: era um psicopata assassino. Tudo o que essa tartaruga sanguinária queria era morder, mutilar e se comprazer com o desespero alheio. E, quando ele mordia, era sempre arremessado contra a parede numa tentativa desesperada da vítima de se livrar do seu predador. Um aviso, caro leitor! Antes de se apiedar da criatura, saiba que ela não se machucava ao ser impetuosamente arremessada, ela rapidamente se recompunha e vinha correndo morder os pés de sua presa. Recolher a fera assassina e recolocá-la no aquário exigia coragem, agilidade e mais um pouco de coragem. Graças a ele, mesmo a simples tarefa de alimentar as tartarugas era complicadíssima, pois Dino estava sempre à espreita, pronto para atacar sem dó nem piedade a mão de sua afetuosa dona.

E esses répteis frios e apáticos foram os primeiros cachorros que pequena Quel conheceu em sua vida. Depois veio o Neno, uma fofura de cão-roedor (mas essa é outra história). Por isso, amigo leitor, quando você ver nossa amiguinha brincando com Lady Biscoito de maneira esquisita, lembre-se: Quel ainda não sabe ao certo como é ter um cachorrinho de verdade, então ela faz o melhor que pode com tudo o que aprendeu em suas experiências anteriores.

Written by Quel

dezembro 4, 2014 at 2:30 pm