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Archive for the ‘Baú de Recordações’ Category

Por onde andei…

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Hoje acordei com saudades. Já viajei um pouquinho pelo mundo e sempre trouxe na bagagem um tantinho desse sentimento…

PorOndeAndeiÀs vezes dá uma vontade de tomar uma taça de vinho às margens do Seine. Ou de subir correndo as estreitas escadas do Castelo dos Mouros. De apreciar o deserto de areia movediça que cerca o Monte Saint Michel no inverno. Sentir os olhos lacrimejarem diante do fogo da Jemaa El-Fna. Caminhar de madrugada entre os túmulos do Canongate Kirkyard. Apreciar as luzes coloridas que adentram o Palacio de Cristal no Retiro. Procurar comida em uma tarde de domingo na Viehofer Straße. Saborear uma tarta de Santiago na praça da Quintana. Fechar os olhos enquanto soam os sinos na torre do Kölner Dom. Comer trufas de chocolate na calçada do Grand Place-Grote Markt. Molhar os pés no Mediterrâneo. Não molhar os pés no Mar Negro. Beber Glühwein diante dos Stadtmusikanten. Deixar uma lágrima na Fonte dos Amores. Beber uma taça de lágrima às margens do Douro. Ouvir Mozart ao lado da estátua do Commendatore. Contar histórias de fantasmas madrugada adentro nos gramados do Château de Caen. Meditar ao som das águas do jardim Generalife. Pisar as areias quentes de Aït Benhaddou. Correr em meio às colunas do Parc Güell. Lutar contra a força dos ventos no Cabo da Roca. Sentir o coração bater mais forte no sítio arqueológico de Pompeii. Admirar os belíssimos corvos da Tower of London. Maravilhar-se com a Ciutat de les Arts i les Ciències. Embebedar-se em um Köhlfahrt pela zona rural de Oldenburg. Comer uma pizza quattro formaggi na Piazza Navona. Acordar em um barco na Oosterdok… Levo essas e outras tantas experiências em meu coração.

Mas hoje eu acordei mesmo é com saudades de atravessar uma rua comum, em um dia sem graça, sem ter a mínima ideia do que fazer. De olhar para cima porque prédios mal cuidados escondem o horizonte. De olhar para baixo porque não há nada de especial no céu nublado. De fechar os olhos porque o chiclete no concreto também não me encanta. De me sentar em um banco qualquer, de uma praça qualquer, em um canto qualquer da cidade. De falar besteiras, discutir futilidades ou apenas sorrir, e ter um sorriso de volta.

Afinal, o que há de mais precioso no mundo é muito simples.

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Written by Quel

novembro 25, 2015 at 7:57 pm

Diários de Viagem

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– Fevereiro de 1988bertioga-lugares-do-brasil

Uma criatura estrebuchada numa toalha sobre a areia. Linda. Sexy. Bronzeada. Todos os gatinhos da praia paqueravam a pequena menininha que delicadamente colocava seus dedinhos na boca, provocando. Era eu.

Já no segundo mês de vida tive minha primeira grande aventura: uma jornada à Bertioga.

A viagem fora cansativa e quente. Minha mãe insistia em me envolver em uma manta, quando o que eu mais queria era colocar meu mini biquíni preto e exibir minhas dobrinhas na perna.

Pequena Quel olhava a água com um misto de curiosidade e medo. Mal havia começado a enxergar e se deparava com um mar imenso e imensa quantidade de areia. Não conseguia se arrastar para além da toalha, pois seu pai, sempre atento, colocava-a de volta em segurança, para longe da contaminação da areia. Ao seu lado, o irmão construía castelos tão imensos que ela poderia entrar lá dentro, e ele a teria colocado lá se a mãe não o tivesse impedido.

bertiogaAinda me lembro de como minha boca espumava só de pensar em um sorvete, um belo picolé de uva. Mas só me era oferecido leite, quentinho. Só meu irmão percebeu minha angústia por uma comida de verdade e tentou me alimentar com milho cozido. Bom irmão.

Era um sem fim de cores e sons. Minhas orelhas ainda sensíveis, acostumadas com canções de ninar, não suportavam aquela música rude e primitiva. O hotel tinha um cheiro estranho, uma mistura de pinho-sol com camarão; muito diferente do cheirinho de morangos do meu quarto que ficara em Campinas. Secretamente eu me perguntava se algum dia retornaria à casa. Tanto tempo longe. Saudades dos meus brinquedos e do aconchego de meu bercinho.

Muitas lembranças boas certamente ficaram perdidas ao longo dos anos que me separam daquele frágil bebê em sua primeira grande aventura. Mas aquela viagem foi a primeira. De muitas outras.

Written by Quel

abril 21, 2009 at 6:51 pm