Quel

Por onde andei…

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Hoje acordei com saudades. Já viajei um pouquinho pelo mundo e sempre trouxe na bagagem um tantinho desse sentimento…

PorOndeAndeiÀs vezes dá uma vontade de tomar uma taça de vinho às margens do Seine. Ou de subir correndo as estreitas escadas do Castelo dos Mouros. De apreciar o deserto de areia movediça que cerca o Monte Saint Michel no inverno. Sentir os olhos lacrimejarem diante do fogo da Jemaa El-Fna. Caminhar de madrugada entre os túmulos do Canongate Kirkyard. Apreciar as luzes coloridas que adentram o Palacio de Cristal no Retiro. Procurar comida em uma tarde de domingo na Viehofer Straße. Saborear uma tarta de Santiago na praça da Quintana. Fechar os olhos enquanto soam os sinos na torre do Kölner Dom. Comer trufas de chocolate na calçada do Grand Place-Grote Markt. Molhar os pés no Mediterrâneo. Não molhar os pés no Mar Negro. Beber Glühwein diante dos Stadtmusikanten. Deixar uma lágrima na Fonte dos Amores. Beber uma taça de lágrima às margens do Douro. Ouvir Mozart ao lado da estátua do Commendatore. Contar histórias de fantasmas madrugada adentro nos gramados do Château de Caen. Meditar ao som das águas do jardim Generalife. Pisar as areias quentes de Aït Benhaddou. Correr em meio às colunas do Parc Güell. Lutar contra a força dos ventos no Cabo da Roca. Sentir o coração bater mais forte no sítio arqueológico de Pompeii. Admirar os belíssimos corvos da Tower of London. Maravilhar-se com a Ciutat de les Arts i les Ciències. Embebedar-se em um Köhlfahrt pela zona rural de Oldenburg. Comer uma pizza quattro formaggi na Piazza Navona. Acordar em um barco na Oosterdok… Levo essas e outras tantas experiências em meu coração.

Mas hoje eu acordei mesmo é com saudades de atravessar uma rua comum, em um dia sem graça, sem ter a mínima ideia do que fazer. De olhar para cima porque prédios mal cuidados escondem o horizonte. De olhar para baixo porque não há nada de especial no céu nublado. De fechar os olhos porque o chiclete no concreto também não me encanta. De me sentar em um banco qualquer, de uma praça qualquer, em um canto qualquer da cidade. De falar besteiras, discutir futilidades ou apenas sorrir, e ter um sorriso de volta.

Afinal, o que há de mais precioso no mundo é muito simples.

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novembro 25, 2015 at 7:57 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: A irmã do Rik

rikrakMini-Rik tinha um ano e dez meses quando pequena Quel entrou em sua vida. Segundo relatos de Senhora Dona Mãe, assim que o bebê chegou em casa, Rik compreendeu que aquele pequeno ser lhe pertencia e morria de medo de que alguém lhe roubasse seu mais novo brinquedo. Assim, chorava copiosamente quando alguém a levava para longe de seu pequeno alcance de visão. Ainda bem que laços amorosos foram construídos logo cedo, pois nossa heroína fez questão de pôr esse amor à prova ao longo de seu amadurecimento.

Poucos anos após o primeiro encontro dos dois, inspirados por um desenho animado, os irmãos decidiram brincar de cachorrinhos, engatinhando pela casa e latindo felizes. Eis que, a fim de defender seu território, filhotinha Quel abocanhou a pata dianteira do outro cãozinho. Dona Mãe, ao ver o filho chorando e escondendo com a mão uma horrenda marca de mordida, começou a gritar com a pequena cachorrinha que, por sua vez, acompanhava tudo com olhos confusos, sem entender exatamente qual era o problema. Cachorros mordem. Todo mundo sabe disso. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Tempos depois, já menos pequenos, os dois irmãos estavam brincando de polícia e ladrão: uma de suas brincadeiras favoritas. Naquele dia, o serviço de inteligência havia descoberto que uma importante instituição financeira estava prestes a ser assaltada. Para defender o tesouro, policial Quel ficou à paisana, fingindo ser a faxineira do banco. Sua arma de espoleta estava cuidadosamente presa em um cinto de barbante. Segurando firmemente sua vassoura, seu olhar atento procurava o menor sinal de perigo.
O assaltante chegou ao banco ostentando uma metralhadora plástica e ordenando que clientes e funcionários se deitassem no chão. Policial Quel, ágil e bem treinada, não teve tempo para sacar sua arma; no calor do momento, sentou a vassoura na cabeça do invasor. Rik chorou. Dona Mãe entrou correndo na sala e encontrou pequena Quel ainda agarrada à arma do crime; sem o menor respeito pela autoridade policial que estava ali cumprindo seu dever, tomou a vassoura e a quebrou em duas partes. Fim da brincadeira. Pequena Quel de castigo.

Castigo era parte da rotina de nossa heroína, cujo caráter ainda estava em formação. Quando a pequena não era pega em suas peraltices, Dona Mãe colocava os dois irmãos de castigo. Em seu quarto solitário, pensando na vida, menina Quel geralmente encontrava arrependimento em seu coração; então, escrevia um bilhetinho: “Rik, você ainda me ama?”, e o passava por baixo da porta de seu irmão. A resposta costumava vir na forma de um giro de maçaneta que lhe convidava a entrar, assim podiam brincar em silêncio, fingindo que ainda estavam cada um em seu quarto.

Certa vez, em um ataque de fúria pré-adolescente, o bilhetinho voltou com a resposta “não”. Naquele exato momento, as paredes da residência dos Faustinos se estreitaram e nossa heroína sentiu que ali já não havia mais lugar para sua pessoinha. Seu irmão já não a amava mais.

Pequena Quel foi para seu quarto e colocou dentro de uma colorida mochila tudo o que uma criança de 9 anos realmente necessita para sobreviver sozinha no mundo: seu ursinho de pelúcia, sua coleção de pintados à mão do Kinder Ovo, o livro ilustrado da Alice, um tubo de pasta Tandy, um pacote de bolacha maria, seu diário pessoal e uma caneta gel prateada. Passando sorrateiramente pela cozinha, onde Dona Mãe estava distraída enrolando pães de queijo, pequena Quel alcançou o quintal e atravessou o corredor sem despertar a desconfiança de sua avó, que costurava no quartinho próximo à garagem. Subindo as escadas, nossa heroína estava finalmente pronta para ganhar as ruas. Ao abrir o portão, um último pensamento ocupou sua mente: pães de queijo.

Logo estariam no forno, adquirindo forma, cor, cheiro e sabor. O sangue mineiro em suas veias falou mais alto, e pequena Quel dedidiu adiar sua partida. Voltou para casa e escondeu a mochila atrás da porta da cozinha, assim, poderia fugir mais discretamente após o lanchinho. Angustiada, deixou-se sentar à mesa da cozinha. Senhora Dona Mãe observou a cena e lançou a pergunta: “você não estava de castigo, mocinha?”. Pequena Quel fez que não com a cabeça. Por algum motivo, negar que deveria estar de castigo costumava funcionar. Senhora Dona Mãe apenas riu e foi chamar o Rik, que ainda estava em seu quarto, “de castigo”, jogando Alex Kidd no Master System.

Ao ver Mini-Rik na entrada da cozinha, pequena Quel não se segurou e caiu no choro. Dona Mãe, muito preocupada, quis saber o que havia acontecido. Em meio a soluços e sentindo um grande aperto no peito, Quel colocou para fora toda a sua dor: “ele disse que não me ama mais”. Rik deu risada, mas Dona Mãe entendeu o desespero de sua pequenininha, pegou-a no colo e lhe explicou que não era verdade. Que aquilo nunca seria verdade.

E foi assim que pequena Quel aprendeu que ela poderia morder o braço de seu irmão, acertá-lo na cabeça com a vassoura e brigar com ele o quanto quisesse… ele sempre a amaria. Da mesma forma, Rik poderia continuar enganando sua irmãzinha (“plante moedas no quintal, vai nascer um pé de dinheiro”); poderia asssutá-la (“você foi mordida por vampiros, olha essa marca aí no seu pescoço”); poderia tirar sarro dela (“só se veste de preto, parece a Wandinha da família Adams”); poderia ameaçá-la (“vou arrancar a cabeça do seu ursinho quando você estiver dormindo!”); poderia até destruir seus sonhos mais românticos (“o Shun nunca vai se casar com você, ele é gay”). Ainda assim, o amor entre os dois irmãos falaria mais alto. E realmente fala. Para sempre.

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outubro 12, 2015 at 8:00 pm

Ovídio, Fastos II, 247-262

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Brincando de traduzir

Forte Ioui Phoebus festum sollemne parabatHidra_Corvo_Taca_
(Non faciet longas fabula nostra moras):
« I, mea », dixit, « auis, ne quid pia sacra moretur
Et tenuem uiuis fontibus affer aquam ».
Coruus inauratum pedibus cratera recuruis
Tollit et aerium peruolat altus iter.
Stabat adhuc duris ficus densissima pomis ;
Temptat eam rostro: non erat apta legi.
Immemor imperii sedisse sub arbore fertur,
Dum fierent tarda dulcia poma mora.
Iamque satur nigris longum rapit unguibus hydrum,
Ad dominumque redit fictaque uerba refert:
« Hic mihi causa morae, uiuarum obsessor aquarum;
Hic tenuit fontes officiumque meum ».
« Addis » ait « culpae mendacia » Phoebus « et audes
Fatidicum uerbis fallere uelle deum?

E apolo tava lá preparando uma festinha pra Júpiter
(Vou falar rapidinho pra ninguém se cansar, tá?)
E aí diz: “corvo, vai lá buscar um tanto de água fresca
Que é pra eu fazer logo a macumba aqui.”
O corvo pega com seus pezinhos curvos a taça de ouro
E vai voando pelos ares buscar a tal água.
Só que ele encontra uma figueira bem carregadinha no caminho,
E, quando vai comer, percebe que os figos tavam tudo verde.
O corvo nem tava fazendo nada mesmo, então decide se sentar
E esperar as frutas ficarem gostosas.
Depois de comer tudo, o corvo mata uma cobra
E leva lá com ele para casa. E aí chega pro Apolo falando:
“Ô seu Apolo, o negócio é o seguinte… eu tava lá…
Protinho para pegar a água, mas esse bicho aqui não deixou.”
E Apolo responde: “corvo, o senhor é um fanfarrão, corvo,
Como é que você tenta mentir para o deus vidente?”

(Tradução de Quel Faustino, 2014)

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julho 20, 2015 at 2:06 pm

Publicado em Latim

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As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Aprendendo alemão (parte II)

Pequena Quel. Kleine Quel. Na aula de alemão. Im Deutschunterricht. Quinta. Donnerstag. Hora do almoço. Mittagessenszeit.

Se já é difícil se concentrar na aula em um dia normal, imagina em uma quinta quente e abafada! Pequena Quel entrou em seu curioso estado de semi-atenção. Semi-vida. Parte de seu espírito estava atenta às palavras estranhas que saiam da boca da professora. Língua engraçada. Difícil. Mas outra parte de seu espírito corria descalça por campinas nubladas em busca de uma flor azul.

A professora insiste. Ela quer que todos se dediquem às tarefas. Ela realmente acredita que seja possível aprendermos alemão! E, então, pede que leiamos o texto do livro:

Was draussen passiert“O que se passa lá fora
A melhor história que já ouvi não ocupa nem uma página e meia. Esqueci o nome do autor. Li um dia no jornal. Dois doentes terminais dividem um quarto. Um fica em uma cama perto da porta; o outro, perto da janela. Somente o que fica perto da janela consegue olhar para fora, então, ele narra ao companheiro, durante horas, diariamente, tudo o que se passa lá fora. Um dia, esse paciente começa a passar muito mal. O que se encontra perto da porta poderia chamar a enfermeira, mas não o faz: ele está pensando na cama junto à janela. De manhã, o outro morre, sufocado. Em pouco tempo as enfermeiras limpam a cama desocupada. Ávido e esperançoso, o paciente ocupa sua desejada cama unto à janela. Ele vira o rosto para ver o que há lá fora. Nada: apenas um muro.”

Terminada a leitura, a professora pergunta o que a turma achou do texto. Um aluno diz que o achou triste, outro diz que o achou engraçado… e, em pouco tempo, a sala toda se rende a uma descontraída análise textual. Pequena Quel sai de seu torpor e se coloca entre as duas posições, tentando justificar que a tristeza da história a torna cômica. Algumas vozes sentem pena do homem que cometeu um crime em vão, outras acham que foi uma forma de justiça. Alguém menciona a bondade do paciente que inventava histórias sobre o que se passava do lado de fora. Outro lembra que Luís Fernando Veríssimo escreveu uma crônica semelhante. Alguém se revolta contra a qualidade desse hospital que permitiu a morte de um paciente. Outro diz que isso poderia ter ocorrido no SUS.

E logo as vozes começam a se misturar, as palavras se atropelam e a análise vai ficando mais e mais animada. No entanto, a professora não está contente e tenta pedir silêncio. A discussão, contudo, já criou vida e se tornou algo muito maior que a sala de aula. Não há como parar: todos querem falar ao mesmo tempo. Alguns escutam seus colegas enquanto falam, outros somente falam. A aula de alemão nunca foi tão viva em uma quinta-feira!

Eis que, com um grito desesperado, a professora consegue deter o monstro da discussão e diz:
“Não dá para comentar o texto em alemão? Eu quero saber o que vocês pensam, mas auf Deutsch!”

A sala encara a professora com espanto por breves segundos, até se ouvir uma voz tímida e insegura:
Matheus diz: “Auf Deutsch? Ok. Das ist traurig” (“Em alemão? Ok. É triste”)
E, aos poucos, outros alunos vão fazendo coro:
Miguel diz: “Das ist traurig”
Mirele diz: “Das ist traurig”
Pequena Quel diz: “Das ist traurig”

E, em poucos segundos, num feito raríssimo, uma sala de 20 alunos consegue chegar a um consenso sobre o texto: das ist traurig.

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Episódio: Aprendendo alemão (parte I)

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maio 13, 2015 at 8:00 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Para lá de Marrakech

Um belo dia, pequena Quel colocou a mochila nas costas e partiu para o Marrocos. Por que não? Afinal, como sabemos, inversamente proporcional à sua baixa estatura é seu grande espírito de aventura.

O vôo partia no primeiro horário do dia 10 de dezembro. Então, pequena Quel teve que dormir no aeroporto Madrid-Barajas, como já havia feito outras tantas vezes. Para quem achou que passaria seu aniversário sozinha, essa mini-mochileira se viu muito feliz por comemorar seus 20 e poucos anos com bolo de chocolate e sentada entre amigos no chão do aeroporto. Esse foi o começo perfeito para a grande peripécia que aguardava nossa pequena aventureira do outro lado do estreito de Gibraltar.

medinaUma vez lá, tudo era fascinante! Desde as vestimentas das pessoas até o formato das pedras na calçada, passando pela escrita nas placas, pela vegetação abundante e pelo clima ímpar da cultura muçulmana. Tudo tão exótico! Pequena Quel subiu sorrindo no ônibus que a levaria do aeroporto à famosa praça Djemaa el-Fnaa, no coração de Marrakech. E foi brincando que repetiu um conhecido palíndromo, sem saber do poder premonitório que tais palavras poderiam ter em terras africanas.

Dentro da medina, os olhinhos da pequena turista mal davam conta de observar todas as quinquilharias das lojinhas apinhadas em estreitas ruelas. Geralmente alheia a vitrines, dessa vez nossa amiguinha não conseguia parar de estudar cada peça em exposição. Tapetes. Temperos. Tabuleiros. Tecidos. Talismãs. Terrinas. Taças. Tequila não (o álcool é manobra abominável de Satanás – Alcorão 5:90).

E foi então que os olhos de pequena Quel recaíram sobre um belo lenço de moedas. Aluna iniciante, ela sentia que aquele lenço era tudo o que lhe faltava para que pudesse se realizar na dança do ventre. Sem ele, nem valia a pena continuar com as aulas (e fica aqui a desculpa). Assim, pequena Quel olhou para dentro da loja, localizou o vendedor e “excusez-moi, ça coûte combien?”

E a aventura começou!

O vendedor puxou nossa pequena mochileira pelas mãos; ela, por sua vez, em sua surpresa, agarrou a mão da amiga mais próxima, a Sil… e ambas foram arrastadas para o interior da loja! No fundo do estabelecimento não havia lenços de moedas. Tentaram sair, mas o vendedor segurava pequena Quel com força e, falando árabe alucinadamente, começou a enrolar uma espécie de turbante na cabeça da pequena que só conseguia dizer “non, non, non”, enquanto tentava se desvencilhar da situação e correr para a praça dos mortos. Após enrolar o pano que, diga-se de passagem, não parecia muito limpo, o vendedor começou a forçar para baixo a mochila que Quel levava nas costas. Cruzando os braços na frente do corpo, nossa pequena viajante continuava a dizer “non, non, non” repetidas vezes e cada vez mais alto. “Lâchez-moi!”, “Laissez-moi partir!”, mas o rapaz parecia não compreender francês.

O que ele queria com sua mochila? Ele sorria, fazia gestos como se estivesse tirando fotos e então insistia em tirar a mochila das costas da Quel, que, desconfiada, tentava impedí-lo a todo custo. Aparentemente não havia nada de muito valor na bolsa: apenas roupas, bolachas e produtos de higiene pessoal. Dinheiro, cartão de crédito e passaporte estavam a salvo no porta-dólar sob a roupa. Mas pequena Quel não iria soltar sua mochila! Em sua mente, ela começou a repassar os muitos avisos que havia lido em sites de viagens sobre roubos de mochilas no Marrocos. E é claro que a combinação [imaginação fértil] + [tendência à paranoia] começou a levar seus pensamentos para outras ameaças, como extração de órgãos e tráfico internacional de mulheres o.O

Conforme aumentava a força do rapaz, crescia o desespero no peito de nossa amiguinha. Confusa, ela não sabia se ria, se chorava, se entregava a mochila e saía correndo, se chamava a polícia ou se perguntava novamente o preço do lenço (e ela ainda estava pensando no lenço?!). E quando tudo parecia perdido, quando a força já abandonava seus cansados bracinhos, quando as lágrimas já se sentiam quentes em seus olhos… um herói veio em seu resgate!

Alertado pela Noely, a única que havia conseguido fugir do ataque do vendedor de lenços, super-Hugo foi em socorro das meninas abduzidas. E foi com toda a imponência de um homem ocidental que ele derrotou o abusado vendedor. E nem precisou fazer nada. Bastou sua entrada na loja para que o homem soltasse pequena Quel imediatamente. Sorrindo sem graça, o vilão explicou, em francês (maldito!), que só queria que a pequena tirasse uma foto usando o tal turbante típico. Sendo assim, o herói abraçou a mocinha, que sorria aliviada para a câmera, e a foto foi tirada. Muito habilmente e visivelmente mau-humorado, o vendedor retirou o lenço da pequena aventureira e deixou que os viajantes partissem em paz.

marrakech1Quel e sua mochila puderam então se reunir ao restante do grupo para curtirem a viagem que correu na mais perfeita tranquilidade… a não ser pelo incômodo de se ter que usar privadas turcas. E pelos homens que passavam se esfregando nas brasileiras. E pelos vendedores que gritavam com quem não queria negociar o preço. Ah! E também pelo banho que, por falta de opção, tomaram na pia de uma padaria. E eu já disse que eles dormiram em uma rodoviária? E que quase foram apedrejados por criancinhas em Fez? E que poderiam ter despencado de cima do Atlas enquanto o motorista dormia ao volante? Tranquilidade!? Estou tentando enganar quem? Há material para pelo menos mais uns cinco ou seis episódios…

Mas o importante é que nossa mini-aventureira voltou para casa sã, salva e cheia de histórias para contar. E, se alguém perguntar à pequena Quel se ela voltaria ao Marrocos, sua resposta será “Claro! Quando vamos?”

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abril 30, 2015 at 5:09 pm

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As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Striptease no banco mais querido do Brasil

Esta tarde, pequena Quel precisava pagar as taxas anuais de seu veículo (IPVA, DPVAT e taxa de licenciamento). O plano era fazer o pagamento pelo Internet Banking: o que deveria ser muito mais prático. Acontece que nada é prático no Banco do Brasil. Para começar, o sistema só funciona no Windows. E esse é praticamente o único motivo pelo qual pequena Quel mantém esse sistema operacional em seu computador. Antes de acessar a página do Internet Banking, ainda foi preciso instalar o módulo de proteção (pela 37ª vez só neste ano). Após baixar, instalar e reiniciar o computador, pequena Quel conseguiu acessar o bendito sistema para pagamentos online. E lá estava a opção para pagar o IPVA. Fácil, não? Não. Ao clicar na opção tão desejada, veio o aviso:

Problema na execução de sua solicitação…
No momento, esta transação de pagamento não poderá ser realizada no autoatendimento internet. Para realizá-la procure um caixa eletrônico ou uma agência do BB. (G999-501)

Pequena Quel, já acostumada com as frustrações de lidar com esse banco, foi até a agência mais próxima de sua casa, na Avenida da Saudade, para efetuar o pagamento. Acontece que o cartão de nossa heroína não funciona nos caixas eletrônicos. Esse problema já persiste há alguns meses, mas falta tempo para ir até a agência da conta solicitar um novo cartão. Pequena Quel faz compras normais no débito, mas não consegue utilizar o caixa eletrônico por falha na identificação. Por ora, bastava se dirigir ao caixa da agência com cartão e RG. Simples, não? Não! Nada é simples no Banco do Brasil. Pequena Quel entrou no banco, retirou sua senha e se dirigiu à porta detectora de metais.

shallnotpassJá acostumada a frequentar agências bancárias, pequena Quel separou chaves e celular. A porta travou. Pequena Quel tirou sua carteira e a bolsinha de moedas. A porta travou. Pequena Quel conversou com o guarda e lhe explicou que em sua bolsa só havia o Kindle, o qual não passa na portinha para pequenos objetos. O guarda pegou o Kindle através de um vão na porta. Sem carteira, moedas, chaves, celular e Kindle, pequena Quel tentou atravessar a enorme barreira de vidro à sua frente. A porta travou. Já impaciente, pequena Quel informou ao guarda: “não tem mais nada aqui” e abriu a bolsa para mostrar que estava vazia. Ele disse que poderia ser a caixinha do óculos (feita de pano!). Então era a sombrinha… que sombrinha, moço? Então eram as moedas no bolso… mas que bolso, moço? Esse short não tem bolsos. Então são os metais da bolsa! O guarda então sugeriu que pequena Quel utilizasse o guarda volumes. Foi preciso que o segurança empurrasse um a um os itens que pequena Quel já havia depositado no compartimento junto à porta. Frustrada e visivelmente impaciente, a cliente menos amada do Banco do Brasil juntou seus pertences, colocou-os na bolsa e guardou tudo no compartimento número 3. Segurando apenas os papéis necessários, a carteira e a chave do armário, nossa amiguinha se dirigiu mais uma vez à porta carinhosamente apelidada de Gandalf. A porta travou. Nossa! É claro que travou! Carteira e chave deveriam estar no compartimento junto à porta, mas a essa altura pequena Quel estava tão atordoada que nem estava pensando direito. Ela colocou a carteira e a chave na caixa de acrílico e se preparou para finalmente adentrar o banco. A porta travou.

Nessa hora, o guarda que era minimamente solícito já havia sumido de vista. Lá estava somente uma moça com cara de poucos amigos que evitava a todo custo o olhar impaciente de uma Quel que gesticulava vigorosamente a fim de ser notada. Foi preciso gritar “vem aqui!” para que a moça, muito mal humorada, chegasse perto do vidro. Nesse momento, a raiva era tanta que pequena Quel tremia dos pés à cabeça. Segurando apenas papéis e com lágrima nos olhos, esperava uma solução da segurança que olhava a cena como se não pudesse fazer nada. A essa altura, todo mundo já estava olhando a pequena garota que segurava o choro. Todos os olhos em pequena Quel. Nenhuma ajuda. Foi preciso gritar “vou ter que tirar a roupa?”. A guarda olhou com ligeiro espanto. “Moça, só falta isso! Vou ter que tirar minha roupa para entrar no banco?”. Todo mundo parou o que estava fazendo para observar a cena. A segurança, então, deu as costas. A raiva era tão grande que podia ser sentida na forma de uma terrível enxaqueca. Pequena Quel nunca se sentiu tão humilhada em toda a sua vida. É difícil até para explicar o que se passava naquele momento. Não dava nem para pensar direito. A respiração ficou difícil. O coração batia acelerado.

A segurança voltou acompanhada do que parecia ser um gerente e ele instruiu pequena Quel a continuar empurrando a porta para poder entrar. Não houve nenhum pedido de desculpa. Tudo o que pequena Quel ouviu foi a segurança falando para o gerente “é a fivela do short”. Isso! É a fivela de plástico do short! Isso explica tudo. Pequena Quel vestia um short jeans, com uma fivela de plástico pintada em tom metálico, uma regata laranja, um top de ginástica, meias de algodão e tênis. No cabelo levava uma presilha de plástico; no punho, uma fitinha de cetim. E só. Sem brincos, sem relógio, sem cinto. Nada, absolutamente nada que explicasse o que aconteceu naquele momento. Depois de todo esse estresse, pequena Quel subiu as escadas até o caixa e descobriu que seu número, R112, já havia sido chamado. Ela se dirigiu ao guarda e perguntou o que ela deveria fazer. Sair para pegar outra senha estava fora de cogitação! O rapaz se dirigiu até o guichê do caixa e explicou a situação. Era como se o banco estivesse fazendo um favor, como se eles estivessem sendo muito bonzinhos ao atender alguém depois da senha já ter sido chamada.

Pequena Quel pagou, desceu e saiu do banco, morrendo de vergonha por ter feito papel de louca. Acreditem, amigos, essa foi a primeira vez que pequena Quel ameaçou fazer um striptease em público. O nervoso era tão grande que ela nem sabe como atravessou a rua, chegou até o carro e foi para casa. Foi só quando ela girou a chave na porta da sala que a realidade de tudo o que havia sido vivido caiu como uma tempestade, causando uma crise de choro e agravando a enxaqueca, tamanha era a raiva do Banco Brasil naquele momento. Ninguém deveria ser obrigado a passar por tanta humilhação.

Written by Quel

abril 30, 2015 at 5:02 pm

As aventuras de pequena Quel

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Episódio de hoje: Uma lição para toda a vida

No longínquo ano de 1998, professora Judita propôs à sala da 4ª série A uma singela tarefa: cuidar de um ovo.
Cada aluno deveria pedir um a seus pais e levá-lo para a escola durante cinco dias. É claro que a classe fez o favor de complicar esse simples dever criando uma atmosfera de competição para ver quem tinha o ovo mais bonitinho, o mais bem vestido, o mais descolado, o mais sexy…

Sr. OvoPequena Quel escolheu um ovo particularmente redondo e, utilizando toda a sua criatividade, chamou-o de Sr. Ovo. Animada com a tarefa, não via a hora de desfilar com seu ovo para lá e para cá na escola. Juntos iriam brincar no parquinho, visitar os coelhos, rolar na grama, fugir da Donana da 4ª B e ouvir histórias sobre a menina do bueiro.
Sr. Ovo, criatura serena que não se chocava com facilidade (ba tum tsss), era pardo, vivia em uma cestinha amarela enfeitada de roxo e não usava roupinhas. Possuía apenas dois olhinhos expressivos que transmitiam carinho e confiança àquela que zelava pelo seu bem estar (vide reconstituição fotográfica).

Contudo, Senhora Dona Mãe, conhecendo a filha estabanada que tem, decidiu cozinhar o sr. Ovo. Era para o bem de pequena Quel, para garantir que ela não ficaria triste quando derrubasse no chão seu novo amiguinho, quando tropeçasse com ele na mão, quando esquecesse que o estava carregando, quando o largasse em um canto qualquer para brincar de pega com os coleguinhas. Assim, em uma panela de água fervente, Dona Mãe matou o propósito da tarefa e privou nossa heroína de adquirir qualquer senso de responsabilidade que pudesse advir dos cuidados com um ovo.

Com aquela missão, mais do que desenvolver seu instinto materno, pequena Quel começou a desenvolver sua conhecida paranoia. Morria de medo de ser desmascarada. Ninguém poderia tocar em Sr. Ovo. Ninguém deveria chegar perto para não sentir seu cheiro, o qual, diga-se de passagem, já se podia notar logo no primeiro dia.
Sr. Ovo não deveria chamar a atenção, não poderia brincar com os outros ovos. Isolaram-se os dois, ovo e Quel, a fim de proteger o segredo do cozimento.

Dona Judita, professorinha de longa data, não ficava inspecionando os ovos de perto, apenas perguntava vez ou outra como eles estavam. Mas, no último dia, para azar de nossa mini aventureira, enquanto elogiava distraidamente a bonita cestinha amarela, Judita foi aproximando seus dedos do rostinho contente do Sr. Ovo…
– Não! – gritou Quel para afugentar o perigo.
A sala toda prendeu a respiração enquanto observavam a cena. A professora afastou a trêmula mão, aguardando uma explicação plausível. Quem grita assim com a querida professora? Pequena Quel precisou pensar rápido:
– É que ele tá dormindo. Acorda ele não.
A professora riu e os colegas respiraram aliviados. Criança diz cada coisa!

Uma nota A seria mais que merecida, mas não nos lembramos ao certo se a tarefa foi avaliada. Sr. Ovo veio a falecer numa pacata manhã de sábado e, apesar dos veementes protestos de nossa heroína, não teve um enterro digno. Por mais que pequena Quel insistisse em lhe conceder todas as pompas necessárias para que ele pudesse adentrar o submundo dos ovos, ele foi sumariamente atirado no lixo orgânico. Diz a lenda que, algum tempo depois, Sr. Ovo reencarnou em um pintinho asmático. Quel, por sua vez, tornou-se uma garota menos responsável e mais paranoica, como havia de ser.

Written by Quel

dezembro 7, 2014 at 2:35 pm